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Educação Física acadêmica e suas influências na profissão |
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Alfredo Cesar Antunes Artigo apresentado no 16º Congresso Internacional de Educação Física – FIEP/Foz do Iguaçu-PR-2001 NA tentativa de justificar a permanência da Educação Física na universidade e definir suas matrizes teóricas iniciou-se um movimento para caracterizá-la como uma disciplina acadêmica. Internacionalmente, esse movimento iniciou-se nos Estados Unidos na década de sessenta. Um artigo de Henry (in: Brooks, 1981), após as colocações de Conant em 1963 quae criticou a preparação de professores nos Estados Unidos fornecendo como exemplo de má preparação os cursos de Educação Física, sugerindo o cancelamento destes cursos, foi o marco dessa discussão acadêmica (Lawson, 1984; Ellis, 1988b). No Brasil as influências desse movimento levaram a procura pelos cursos de pós-graduação em Educação Física no exterior e a implantação desses cursos no Brasil no final da década de setenta e começo da oitenta (Canfield, 1988). O fortalecimento desse movimento no Brasil aconteceu na década de oitenta, após o retorno dos pós-graduandos do exterior e com o aumento de eventos científicos e criação de periódicos da área, fato que favoreceu a discussão do tema sobre o campo de conhecimento da área (Betti, 1991). Porém, na literatura esse movimento se consolidou apenas na década de noventa. Para Henry (In: Brooks, 1981), disciplina acadêmica é um corpo de conhecimento, abrangido coletivamente em um curso formal de aprendizagem, sem objetivar aplicação prática, ou seja, o conteúdo é teórico e acadêmico, sem necessidade ou requerimento de aplicação prática. Segundo Henry, há de fato uma área acadêmica de conhecimento básico para Educação Física, que é constituída de certas porções de várias disciplinas como anatomia, fisiologia, antropologia, psicologia, sociologia, etc. Porém, essa área de estudo, considerada como uma disciplina acadêmica não consiste da aplicação dessas disciplinas, apenas utiliza certos aspectos destas para explicar um fenômeno próprio da Educação Física, ou seja, tem um aspecto crossdisciplinar. Essas proposições de Henry contribuíram significativamente para estabelecer a discussão inicial da disciplina acadêmica de Educação Física, possibilitando o desenvolvimento de estudos e pesquisas nas universidades, caracterizando o chamado "movimento disciplinar" da Educação Física. Assim, na busca dessa identidade acadêmica surgiram propostas de estudo e junto a elas a mudança do próprio nome, procurando encontrar o que melhor caracterizasse a área de acordo com a teoria da proposta. Alegando-se o termo Educação Física inadequado para a caracterização do seu campo de estudo, vários nomes foram sugeridos para denominar a área. Como exemplo pode-se citar educação esportiva, ciência do esporte, cinesiologia, educação do movimento, ciência do movimento humano, ciência da saúde e do esporte, ensino e pedagogia do esporte, ensino do movimento, performance humana, ciência do exercício, etc. (Razor & Bressie in: Corbin & Eckert, 1990; Farinatti in: Faria Jr & Farinatti, 1992; Newell,1990a). Essa quantidade de nomes para a área da Educação Física mostra a diversidade de opiniões, entre os estudiosos, que até hoje ainda persistem, dificultando o desenvolvimento acadêmico e a preparação profissional. Porém, o movimento disciplinar que se iniciou com o objetivo de valorizar e homogeneizar a Educação Física, apresentou vários problemas como o rompimento com a prática da Educação Física e com a experiência pessoal e prática e assim o aumento da distância existente entre a teoria e a ação profissional (Lawson, 1984; Newell, 1990b; Tani, 1988, 1996a). Dessa forma, os conhecimentos produzidos não contribuíram significativamente na melhoria da prática profissional e não houve uma definição do corpo de conhecimento da área. Esses fatores, sem dúvidas, levaram ao distanciamento do profissional que atuava no mercado de trabalho. Vários autores apresentaram idéias e propostas que levasse a área a adotar novos conceitos na tentativa de caracterizar a Educação Física no âmbito acadêmico e também profissional. A seguir serão mostradas algumas idéias e propostas que se destacaram no Brasil. Para Cagigal (apud Tojal, 1994) a Educação Física deve estruturar-se a partir das realidades antropo-sociais do homem. O objetivo da Educação Física é o homem em movimento com suas possibilidades de ação e expressão. E propôs o termo kinantropologia para denominar a área de conhecimento. Para Parlebás (apud Tojal, 1994) a Educação Física deve centrar-se no ser que se move e o objeto da Educação Física é a conduta motriz que se centraliza no indivíduo em ação e nas modalidades motrizes de expressão da personalidade levando em consideração os dados objetivos do comportamento motor e os subjetivos da ação. Le Boulch (apud Tojal, 1994) afirmou que a Educação Física tinha por objetivo o domínio do corpo e o desenvolvimento das funções psicomotoras. Sua proposta que no princípio era para o conceito de Educação Física, mais tarde mostrou-se geral, sendo de interessa de diversas áreas. Segundo Pellegrini (1988) a Educação Física deve se preocupar com o desenvolvimento das capacidades motoras (controle motor) do ser humano. Para Oliveira (1990) a Educação Física, deve desenvolver potencialidades humanas enquanto processo individual e, enquanto fenômeno social, deve ajudar o homem a estabelecer relações com o grupo a que pertence. Medina (1983) diz que a Educação Física deve auxiliar no desenvolvimento integral dos seres humanos (através de atividades específicas da Educação Física) para a realização de uma sociedade mais justa e livre. Outros autores como Farinatti (in: Faria Jr & Farinatti, 1992), Bracht (1993) e Gaya (1994) defendem uma matriz pedagógica para a Educação Física, ou seja, defendem a Educação Física escolar como o principal objeto de estudo da área. Bento (1987, 1991) propõe o desporto (esporte) como paradigma, o grande meio e o real objeto de estudos para a Educação Física. Ele entende o desporto como sujeito plural, ou seja, o desporto revela uma enorme variedade de facetas, contornos e sentidos, podendo ser desenvolvido em escolas, clubes, de maneira formal ou não-formal, tendo objetivos competitivos, recreativos, educativos, de saúde, podendo ser atividade profissional, comércio e negócio, artigo de consumo, indústria de entretenimento, etc. A proposta de ciências do esporte é defendida no Brasil por diversos estudiosos, principalmente através do periódico Revista Brasileira de Ciências do Esporte. Segundo Brochado (1995), o que no Brasil se denomina de Educação Física ou motricidade humana, abrangendo a atividade física de um modo geral e não apenas as atividades de caráter competitivo é denominado ciências do esporte por autores principalmente alemães. Bracht (in: Ferreira Neto et al., 1995) também fala sobre a impossibilidade de diferenciar epistemologicamente a Educação Física das ciências do esporte. Sérgio (1987, 1989) coloca que o verdadeiro objeto de estudo da Educação Física é a motricidade humana, partindo do princípio de que o homem é um ser em busca da transcendência e a motricidade é a capacidade de movimento dessa transcendência, ou seja, se baseia na intencionalidade operante e na ascensão do Homem para o mais humano, tanto do ponto de vista biológico quanto psicológico, ideológico, cultural e espiritual. A motricidade humana compreende o treino, a dança, a motricidade infantil, a ginástica, o jogo desportivo, o desporto, o circo, a educação especial, a reabilitação e a ergonomia, entre outras atividades. Segundo Tojal (1994), para Manuel Sérgio, a ciência da Motricidade Humana é a ciência da compreensão e de explicação das condutas motoras Tani (1996a) propõe a cinesiologia para o estudo do movimento humano. Este movimento humano é expresso em movimentos genéricos como postura, locomoção e manipulação e específicos do esporte, exercício, ginástica, jogo e dança. A sua proposta tem uma estrutura dividida em pesquisa básica e aplicada. A cinesiologia é o ponto central da pesquisa básica e é constituída de três sub-áreas de conhecimento, quais sejam, a biodinâmica do movimento humano, o comportamento motor humano e os estudos sócio-culturais do movimento humano. Devido às constatações dessa natureza, começou um esforço na tentativa de tornar a valorizar o aspecto profissional e a pesquisa aplicada procurando o equilíbrio entre o acadêmico e o profissional. Segundo Tojal (1994): "Tais observações levavam a que se entendesse que uma ciência aplicada deveria ser definida, fundamentalmente, pelos objetivos a que se destina. Na Educação Física é possível encontrar-se uma larga variedade de termos e funções, e assim seria possível determinar-se não uma, mas várias educações físicas, em razão direta com seus objetivos concretos" (p.58).
Apesar dessas idéias e propostas, ou mesmo pelo auxílio delas a Educação Física ainda apresenta diferentes visões e objetivos. Segundo Mezzadri (1994), por exemplo, há pelo menos três abordagens da Educação Física no terceiro grau. Na primeira abordagem as soluções para os problemas da área estão na pesquisa científica, a segunda relaciona-se com a pesquisa e o mercado de trabalho e a última abordagem estaria ligada à historicidade e às questões sócio-políticas e culturais. Contudo, entende-se que essas propostas e idéias contribuíram significativamente para o entendimento da Educação Física como uma área profissional e de pesquisa aplicada. Esse consenso da necessidade de produção de conhecimentos aplicados voltados à prática profissional na Educação Física é defendido por vários autores (Ellis, 1988a; Betti in: Gebara, 1992; Bento, 1993; Mariz De Oliveira, 1993; Teixeira, 1993; Pellegrini & Albuquerque in: Resende & Votre, 1994; Lima, 1994; Barros, 1996; Kokubun in: Ferreira Neto, 1995; Betti, 1996; Tani, 1996a) que entendem a área como tendo a responsabilidade acadêmica de produzir, organizar e sistematizar conhecimentos relacionados com a atuação e solução de problemas do profissional que atua no mercado de trabalho junto à sociedade. Estas propostas também mostraram a relação da Educação Física com os diversos aspectos que dizem respeito aos seres humanos (cultural, social, cognitivo, afetivo, psicológico, ideológico, espiritual, educacional, econômico, etc) além dos biológicos. Nessa busca da identidade acadêmica e matriz teórica para a Educação Física, o movimento humano (motricidade humana), nas diferentes nuances, formas e entendimentos, foi definido como o objeto de estudo da área. Porém, ainda falta um consenso final sobre a essência e natureza dessa área de estudos. Essas idéias também mostraram que a busca da identidade acadêmica da área tem relação muito íntima com a preparação e atuação do profissional no campo da Educação Física. A caracterização do campo de conhecimento da área é fundamental para a competência profissional, caso contrário, a preparação profissional será caracterizada pela indefinição e quem sairá perdendo é o profissional, que não será valorizado e a sociedade que faz uso dos seus serviços que não terá a qualidade esperada. Assim, os profissionais de Educação Física devem dirigir suas dúvidas às instituições de ensino superior (IES), locais onde prioritariamente se produz conhecimentos, para que estas forneçam possíveis respostas para a melhoria da prática profissional. Deve haver uma interação entre o profissional que atua no mercado e as IES. Preparação profissional em Educação Física É consenso entre os autores citados acima que a caracterização e atuação profissional eficiente deve estar embasada no domínio de um corpo de conhecimento científico e técnico sobre o movimento humano. Além disso, a sociedade atual, com acesso a conhecimentos científicos recentes, desperta para novas necessidades e exige serviços específicos e de qualidade na área de Educação Física e esportes, portanto necessita de profissionais especializados nessa área (Barros, 1993). Cabe aos cursos de preparação profissional, selecionar esses conhecimentos em função do perfil do profissional que se pretende formar e transmiti-los aos futuros profissionais e cabe aos cursos de pós-graduação, direcionarem suas pesquisas também às necessidades do profissional que está atuando no mercado de trabalho. Segundo Barros (1996) a formação profissional exige preocupação com a atitude científica, para o profissional isso significa aceitar a pesquisa como um instrumento importante para o aprimoramento da prática e para o pesquisador (acadêmico) significa deixar o conforto dos laboratórios, passível de controle, e aproximar-se da prática com suas exigências do trabalho em equipe e de resultados. Com relação ao perfil do profissional de Educação Física, antes da Resolução CFE 03/87 (Brasil, 1987a) só existia o curso de licenciatura, que tinha por objetivo formar o educador para atuar em escolas de primeiro e segundo graus. Porém, esses licenciados atuavam também em outros espaços, como academias, clubes, empresas, condomínios, etc. Mas os cursos de licenciatura não preparavam bem esses indivíduos para atuarem fora do setor escolar (e também no próprio setor escolar), fato que contribuiu para a criação de cursos de bacharelado em Educação Física a partir de Resolução CFE 03/87 (Brasil, 1987a), que tem como campo de atuação instituições não escolares que prestam serviços a sociedade no campo da Educação Física. Segundo o Parecer CFE 215/87 (Brasil, 1987b), apesar da Licenciatura e do Bacharelado serem titulações distintas com diferentes ênfases e delimitações do campo profissional deve haver uma linha de unidade entre os dois cursos. Para o bacharel a Educação Física tem que ser pensada como um campo específico de conhecimento e o licenciado visará o ensino de primeiro e segundo graus, com possibilidade de atuação em atividades não-escolares. Existe também a possibilidade do aprofundamento de conhecimentos em áreas específicas. Segundo o parecer, sem o bacharelado, a Educação Física continuaria a sobrevalorização do conhecimento pedagógico e esportivo em detrimento do específico da área. Porém, para alguns autores existe falta de clareza nas argumentações do parecer sobre a diferenciação entre o corpo de conhecimento a ser desenvolvido na formação do bacharel e do licenciado, ou seja, o bacharelado não trouxe mudanças no trato com o conhecimento, na forma de transmiti-los, administrá-los e avaliá-los, apenas incorporou-se alguns conteúdos (Carmo,1988; Taffarel, 1992). Faria Jr. (1987) manifestando-se também de forma contrária ao bacharelado argumenta que a formação geral conseguida com a licenciatura é mais ampla e flexível do que o saber especializado e técnico do bacharelado que fragmenta a profissão por criar mais grupos de poder e códigos de ética, fecha o mercado e cria monopólios fragilizando o processo de formação profissional. Contudo, outros autores defendem o bacharelado pela necessidade de uma formação diferenciada do profissional de Educação Física que irá trabalhar nas escolas de primeiro e segundo graus daquele que irá trabalhar fora da escola, devido às exigências específicas do atual mercado de trabalho (Mariz De Oliveira, 1988; Pellegrini, 1988; Tojal, 1989; Barros, 1996). Betti (In: Gebara, 1992) esclarece dizendo que não se deve associar o bacharel em Educação Física com o especialista e o licenciado com o generalista. O licenciado é um especialista em escolas de 1º e 2º graus (atual ensino fundamental). Segundo Betti, as licenciaturas têm fracassado, porque sua ênfase não está nas escolas de 1º e 2º graus, mas em outra parte onde o aluno possa futuramente encontrar emprego. Outro motivo que Betti (In: Gebara, 1992) coloca para não se adequar tudo em um só currículo é que um currículo sério, que realmente proporcione um domínio teórico e prático de todas as áreas de atuação da Educação Física deveria aproximar-se das 5 mil horas/aula ou seis anos de duração, uma proposta insustentável num país de Terceiro Mundo. Betti & Betti (1996) identifica e caracteriza dois tipos de currículo utilizados na formação profissional em Educação Física. O primeiro é o tradicional-esportivo que enfatiza as disciplinas práticas (esportes), separa as aulas teóricas (sala de aula) das práticas (quadras, piscina, pista, etc) e a ênfase teórica é para as áreas biológica e psicológica. O outro currículo é o técnico científico que valoriza as disciplinas teóricas e abre espaço para as ciências humanas e a filosofia. O conceito de prática muda para o "ensinar a ensinar" e a prática é a aplicação dos conhecimentos teóricos. Segundo Betti & Betti (1996) o modelo técnico científico recebeu influência da concepção que vê a Educação Física como disciplina acadêmica (movimento disciplinar) e está em vigor tanto em universidades públicas quanto em particulares, mas raramente na sua forma pura, na maioria das vezes está combinada com o tradicional esportivo. Apesar do modelo técnico científico ter introduzido novos conhecimentos científicos e filosóficos e desestabilizar a tendência tradicional-esportiva, apresenta as mesmas limitações do movimento disciplinar abordados anteriormente, além de não levar em consideração as realidades comportamentais, culturais e políticas da prática. A preparação profissional adequada às demandas do mercado de trabalho, é fundamental na atuação do profissional de Educação Física. Uma preparação profissional inadequada, entre outros fatores, faz com que os indivíduos graduados em Educação Física não possam ser considerados profissionais, pois deixa de atender a vários critérios de uma atividade considerada profissional. Para Lawson (1984) numa profissão a ação está baseada no conhecimento sobre a essência do serviço que é oferecido e sobre quem presta esse serviço. Como o conhecimento muda com as mudanças sociais os profissionais são capazes de alterar o modo como eles trabalham. Quando uma ação não está baseada nesse critério ela se caracteriza como ocupação que é um conjunto de técnicas obtidas pelo processo de tentativa e erro e pouco influenciável pela produção de conhecimentos científicos. Segundo Flexner, citado por Barros (1993), para que uma atividade se caracterize como profissional deve apresentar alguns critérios. O primeiro determina que a atividade profissional deve ser de natureza intelectual, ou seja, baseada em um corpo de conhecimentos. Em seguida, deve ser prática, para atender à prestação de serviços. A atividade profissional também deve ser dinâmica, para atender à atualização profissional. A profissão deve apresentar organização interna, uma instituição que a represente. É preciso possuir conteúdo que possa ser comunicado (comunicabilidade). E finalmente, contribuir para o desenvolvimento e bem-estar da humanidade, ou seja, altruísmo. Diante desses critérios, uma questão imprescindível para o desenvolvimento da profissão é o equilíbrio entre a teoria e a prática. A teoria é entendida como a produção de conhecimento e a prática a aplicação desse conhecimento (prestação de serviços). Porém, tanto a teoria quanto a prática estão relacionados com o conhecimento, portanto, é necessário que o profissional entenda esta interação e acabe com esta dicotomia entre teoria e prática que está presente nos próprios cursos superiores onde existe a separação das disciplinas ditas práticas das teóricas criando um abismo entre os dois, que sem dúvidas é prejudicial para a preparação e atuação profissional. Não é fácil determinar que tipo de conhecimento é necessário para a atuação profissional. Segundo Tani (1996a) para pessoas com tendência acadêmica, quem está melhor preparado para atuar no mercado são os profissionais com conhecimentos oriundos de pesquisas básicas, pois os conhecimentos aplicados são específicos e difíceis de serem generalizados. As pessoas com tendência profissional acham que os profissionais com conhecimentos aplicados estão mais preparados para atuar no mercado, pois os conhecimentos básicos são produzidos de forma fragmentada e sem relação com realidade prática da sociedade. Existe um pensamento popular de que para atuar como professor, instrutor ou técnico, na área da Educação Física e esportes é necessário ter praticado e ter certa habilidade na atividade que atua. Porém, se aceitarmos essa colocação, segundo Pellegrini (1988) os currículos de graduação deveriam oferecer um número infinito de experiências motoras. Segundo Tani (1996b), ainda com relação às experiências práticas, em pesquisas realizadas, saber executar para demonstrar não foi considerado a melhor forma de aprendizagem motora. Além disso, utilizar aprendizes como exemplo e explicação oral mostram resultados mais eficientes na aprendizagem motora, pois a habilidade aprendida é subjetiva e precisa ser descrita e para isso é necessário ter sólidos conhecimentos científicos sobre o assunto, senão qualquer atleta ou bom executor de determinado movimento ou habilidade motora seria um ótimo professor ou instrutor de determinado esporte ou atividade física e isso não é verdade. Contudo, a experiência prática é fundamental para o exercício da profissão. Betti & Betti (1996) citando Lawson (1990) sugere que a prática deve ser o foco da pesquisa e da preparação profissional que não deve se fundamentar apenas na ciência, ou seja, o profissional de Educação Física também constrói seu próprio conhecimento denominado de conhecimento de trabalho ou operacional. Esse conhecimento é tácito onde os profissionais aprendem com outros colegas, por ensaio e erro, adapta suas ações de acordo com a instituição ou comunidade, aproveita alguns conhecimentos aprendidos na sua formação acadêmica e despreza outros. Betti & Betti (1996) entende que é esse o conhecimento que deve ser o objeto central de estudos nos currículos, ou seja, uma epistemologia de trabalho ou profissional e propõe uma formação baseada na prática da reflexão sobre o ensino, onde o profissional reflete antes, durante e após a ação de ensinar, o profissional elabora o seu próprio conhecimento, incorporando e transcendendo o conhecimento técnico-científico. Isso distinguiria um profissional com formação acadêmica de um leigo. Tais conceitos são aplicáveis à qualquer área onde atuam profissionais de Educação Física. Tani (1996b) explica que as experiências práticas só fazem sentido se estiverem associadas aos conhecimentos científicos e as experiências práticas são adquiridas no exercício da profissão. O curso de graduação tem por objetivo desenvolver a sensibilidade profissional específica da área de estudo. Partindo dessas colocações verifica-se que há uma diferença significativa entre praticar e prescrever e orientar uma determinada atividade física. Dado o exposto, o que se pode afirmar é que há um complexo e íntimo elo entre teoria (produção de conhecimentos) e prática profissional (prestação de serviços), que deve ser mantido na profissão (Barros, 1993). O profissional da Educação Física deve servir à sociedade adicionando os novos conhecimentos produzidos aos já existentes e usá-los em seu trabalho, alterando a sua prática de forma consciente. A prática contribui nas análises científicas, assim como o conhecimento científico serve para melhorar ou mudar a atuação profissional para que seja mais segura e eficiente. Se não existir essa relação não existe preparação profissional (Lawson, 1984). A ênfase exagerada em algum dos fatores irá descaracterizar a atividade como profissional e prejudicar a qualidade da prestação de serviço. A ênfase na teoria caracteriza a atividade como acadêmica (pós-graduação - mestrado e doutorado) e a ênfase na prática caracteriza a atividade como ocupação (trabalhador braçal por exemplo) (Barros, 1996). Lawson (1984) explica que se os programas de preparação profissional forem planejados exclusivamente para acompanhar a prática atual, então o resultado será muito treinamento e pouca educação. Tais programas devem preparar as pessoas para as mudanças futuras, ou seja, educar. Treinamento e educação são relacionados e compatíveis, mas diferentes e um programa de preparação profissional deve conter ambos. A próxima geração de profissionais da Educação Física não necessitará de uma grande variedade de conhecimentos desconectados , em vez disso necessitará conhecer como aconselhar, liderar crianças e adultos, planejar e efetivar seus estilos de vida. A decisão para cursar Educação Física será devido a uma apreciação das possibilidades que a área tem para o desenvolvimento humano que dura toda a vida e não pelo desejo de continuar na área por causa da excepcional habilidade em algum esporte.Porém, um estudo realizado por Barros (1998) mostra que as instituições de ensino superior do Estado de São Paulo, apesar das possibilidades e flexibilidade na organização curricular que a Resolução CFE 03/87 (Brasil, 1987a) oferece, pouco fizeram para adequar os currículos dos cursos de graduação em Educação Física ao novo referencial proposto pela referida resolução e aos novos perfis do mercado de trabalho. Na maioria das instituições a alteração dos currículos foi apenas o aumento da carga horária, sem alterar significativamente a estrutura curricular, a licenciatura continua sendo confundida com formação generalista e as principais oportunidades de emprego não estão recebendo a devida atenção. Em síntese, as instituições de ensino superior devem preparar profissionais para atuarem no mercado de trabalho embasados em um corpo de conhecimentos. Com relação à Educação Física, as IES devem preparar profissionais para atuarem em diversas áreas. Porém, como foi abordado, existem muitos problemas com a preparação profissional em Educação Física como a discussão entre a licenciatura e o bacharelado e a não adequação dos currículos com o mercado de trabalho, o que dificulta a interação entre teoria e prática. Além desses fatores, outro que influencia na caracterização da profissão é a organização profissional. A falta de regulamentação da profissão da Educação Física antes da Lei n. 9.696/98 possibilitava a atuação de pessoas não-habilitadas e de profissionais de outras áreas pela falta de fiscalização da atuação de seus "profissionais" e impedia o intercâmbio entre esses e as IES. Segundo Barros (1996) a organização profissional da área de Educação Física permite a interação entre produção de conhecimentos (teoria) e prestação de serviços (prática) e a atualização e reformulação dos currículos, porque não há quem cobre tais necessidades, ou seja, há como chegar nas instituições de ensino os problemas da prática para que esta se modifique. A organização profissional deve exercer a ação tanto sobre a produção e organização do conhecimento acadêmico, quanto na formação de profissionais, influenciando a organização dos currículos dos cursos de graduação de Educação Física. Steinhilber (1996) afirma que a organização profissional da Educação Física é a defesa da sociedade contra a prática profissional leiga e irresponsável, através do caráter disciplinar de promover o controle ético e punir quando for necessário, isto é, os conselhos são órgãos fiscalizadores e mantenedores da qualidade profissional. Apesar dessas colocações serem verdadeiras e lógicas, os membros da sociedade concedem a uma profissão o status especializado somente quando a profissão estabelece um bom e autêntico relacionamento com ela, baseado na importância e qualidade dos serviços prestados. Segundo Faria Jr (in: Gebara, 1992; 1996) a profissionalização não é acompanhada invariavelmente pelo desenvolvimento profissional e não deve apoiar-se nas necessidades consumistas do mercado de trabalho, e ainda, uma profissão é histórica e socialmente construída. Ellis (1988a) diz que para conseguir esse status os profissionais devem ser capazes de produzir benefícios e desenvolver serviços confiáveis, necessários e baratos para um grande número de clientes. Uma vez alcançado o status profissional este só continuará se a sociedade achar necessário os serviços prestados por essa profissão, caso contrário poderá ocorrer o processo de desprofissionalização. Para se evitar isso a profissão deve estar preparada para mudar com o tempo e usar seus novos conhecimentos produzidos (Lawson, 1984). Para sobreviver os profissionais de Educação Física terão que garantir experiências de alta qualidade além de um cenário de interações sociais superiores e muito mais eficientes que antes. Estas circunstâncias serão tanto um desafio quanto uma oportunidade para as IES, que são responsáveis pela preparação dos novos educadores físicos. Enfim, a regulamentação da profissão, por si só, não é suficiente para seu reconhecimento e valorização, é muito mais importante e necessário a competência profissional. Porém, essa competência apenas será completa se estiver embasada em um corpo de conhecimento que dê suporte teórico (científico) e prático ao profissional que atua no mercado.
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